Há tempos sempre quis fazer um texto juntando os dois assuntos que mais gosto desde que me conheço por gente. Crescendo numa família festeira, que sempre amou se reunir pra assistir futebol, assar carne e ouvir samba-rock, era impossível que o esporte bretão e a música estivessem separados na minha lista de eternas paixões.
Dessa forma, nesse post e nos dois seguintes, falarei de algumas músicas que ouvi desde pequeno em todos esses encontros familiares, e de outras que me ganharam pela narrativa dessa junção ao longo dos anos.
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É impossível falar de música e futebol sem falar de Jorge Ben. Este é o homem que melhor consegue expressar o futebol em canções. Chico Buarque tentou falar dessa paixão nacional em "O Futebol", mas o maior compositor brasileiro é uma espécie de Xavi ou Pirlo nesse quesito. Por mais bonito que o faça, jamais vai ter a ginga necessária para encantar e ser ovacionado por multidões.
Jorge Ben não tem a métrica perfeita de Chico, mas encanta pela simplicidade. Todos conhecem a narrativa do "verdadeiro gol de placa" de Fio Maravilha, e do ponta de lança africano Umbabarauma, mais famoso até que o Drogba para os brasileiros de mais idade.
No entanto, Deco, meu pai, e Duda, meu tio, grandes amantes de Jorge Ben como eu, em seus tempos de jogadores de várzea nunca foram fazedores de gol como os anteriormente citados. Talvez até sonhassem ser, mas a realidade proporcionou a posição de zagueiro (meu pai também jogou de goleiro, mas no futsal) para a capacidade futebolística deles. E isso foi até bom, pois, se não fosse por isso, é provável que a música "Zagueiro" não tivesse tanto destaque quando nos reuníamos.
A facilidade de Jorge Ben em falar sobre futebol nas letras era tão grande que até música pra segunda posição mais ingrata do futebol ele fez. Chega a ser engraçado, mas até o atacante mais preguiçoso na marcação, ao ouvir essa música, percebe a beleza da posição.
"Ele é um bom zagueiro / É o anjo da guarda da defesa / Mas para ser um bom zagueiro / Não pode ser muito sentimental / Tem que ser sutil e elegante / Ter sangue frio, acreditar em si e ser leal"
Talvez dê pra se contar nos dedos de uma mão os zagueiros que reúnam todas essas características. Assim como é quase impossível de se ver músicos com o dom de juntar futebol e melodia como faz Jorge Ben. Dessa forma, é bom ver que, mesmo que indiretamente, eternos monstros do desarme como Beckenbauer, Maldini, Baresi - e por que não Deco e Duda? - terão, também, o seu lugar na eternidade musical.
O californiano Kendrick Lamar, um dos mais elogiados da nova safra
Pois é. Depois de um longo e tenebroso inverno parece que a vertente mais contemporânea da black music começa a passar por concretas revitalizações.
Animados pelos recentes sucessos de Kanye West e Jay-Z, tanto com os trabalhos solo de cada um, quanto com "Watch the Throne", aclamado disco em conjunto da dupla, novas caras e novas tendências passam a ganhar força. Artistas de diferentes assuntos e métodos de criação, mas com um fator em comum: a quebra de laços com o Gangsta Rap moderno, a última vertente de sucesso do gênero.
Nos anos 2000 rappers como 50, Cent, Nelly, Ja Rule, Fat Joe, entre outros, reviviam o Gangsta Rap. Porém, diferente das épocas de Tupac e Notorious, em que realmente havia rixas e muita rivalidade, a modernização desse gênero era, de certa forma, forçada e de mau gosto.
No fim da década, com a ascensão de Kanye West, a mudança de vertente de Jay-Z, e o surgimento de rappers como Lupe Fiasco, um novo jeito de versar passou a ganhar força. Com disco "Graduation", Kanye, entre outros assuntos, fala sobre julgamentos em Can't Tell me Nothing e sobre fama em Flashing Lights. Jay-Z fez "American Gangster", a ótima trilha sonora do filme "O Gângster" estrelado por Denzel Washington, contando com o mafioso do longa como personagem principal deste trabalho. Já Lupe Fiasco, em seu primeiro disco, "Food and Liquor", versava sobre assuntos variados que iam desde a relação EUA x Iraque, até o preconceito e repressão barata de policiais contra skatistas.
Defensor do fim da homofobia no rap, A$ap Rocky fez inusitada parceria com a cantora Lana del Rey
Hoje em dia artistas como Kendrick Lamar, Childish Gambino, Wiz Khalifa, J Cole e A$ap Rocky renovam o estilo. Cada um com um estilo bem peculiar, geralmente oriundo dos lugares em que cresceram, mas com um leque maior de assuntos, beats, flows e, consequentemente, público. O rap agradece.
Ultimamente, no cenário musical, venho me atentando a alguns fatos. O principal deles é a ascensão e a veneração a toda qualquer novidade que tenha efeitos na voz, instrumental às vezes descompassado, linearidade na tonalidade vocálica e no instrumental, fatores que, carinhosamente apelidei de "Boniverismo".
Primeiramente gostaria de deixar bem claro que meu objetivo não é desvalorizar estas bandas. Creio que são estilos válidos e que me agradam em sua boa parte. Mas vejo no cenário musica atual uma predominância de bandas que tem esta vertente. E, pelo que vejo, as novidades que surgem estão indo cada vez mais nessa direção.
O disco "Bon Iver, Bon Iver" é um marco. Já percebe-se em muito pouco tempo, bandas influenciadas por alguns elementos desta obra em faixas de trabalhos recentes como por exemplo Poliça em Wondering Star e Lay you cards down (que conta com presença de Michael Noyce, homem forte do coletivo de Winscosin que não vive apenas de Justin Vernon), Grimes em Visions, Frankie Rose em Know Me e Kindness em House e no tom de voz de Cyan. Estas são todas bandas que me interessaram como boas surpresas, porém, temo que a tendência seja termos cada vez mais novidades neste estilo. É bom? É. Mas desgasta bastante e chega a ser enjoativo, ao meu ver.
Channy Leaneagh, a bela e carismática vocalista do Poliça
Um ou outro pode me dizer que há muitas diferenças entre as bandas citadas e Bon Iver. Sim, inúmeras. Bon Iver tem muito mais influências do folk do que todos esses artistas, e só isso já daria uma série de argumentos para diferenciá-las. A questão é o feeling, a ambientação que essa nova safra carrega. Todas bem parecidas.
Sinto falta da mistura. Da maior experimentação de ritmos e influências. De variar um pouco este clima "inverno", sonolento, passado sempre por Bon Iver, James Blake, e seus seguidores.
Que as bandas busquem mais influências, misturem, se aventurem e se divirtam. Música é feita para isso, afinal.
01 - Bombay Bicycle Club - How Can You Swallow So Much Sleep?
Primeiramente gostaria de deixar bem claro que isso aqui não tem, nem nunca teve o objetivo de ser uma verdade absoluta. Não tem nenhum critério coerente e condizente com o ano das bandas ou com as listas das grandes revistas e/ou sites de música. Aqui, em pauta, estão as bandas que eu mais ouvi no ano, e, dessa forma, fui destrinchando cada aspecto que me fez me apaixonar por tais músicas.
Em alguns momentos coincidências podem ter havido. Bandas que se destacaram no ano podem, também, ser as bandas que mais se destacaram nos meus ouvidos. Aqui, agora, não é o caso.
O primeiro lugar da minha lista é de uma banda pouquíssimo falada em 2011, mas que, com uma música, fez o meu ano.
O que dizer de um som que começou a fazer minha cabeça por volta de novembro de 2010, e que eu continuo ouvindo sem parar até hoje?
É engraçado. Nesse período eu sempre achava que, em algum momento, "How Can You Swallow So Much Sleep" se esvairia da minha cabeça.
Quando enjoei da primeira versão (a lançada como parte da trilha sonora da Saga Crepúsculo), surgiu a versão oficial, presente no disco "A Different Kind of Fix", do primeiro semestre de 2011. Com um novo arranjo do criativo baterista Suren de Saram, a música ganhou em intensidade. Deixou de ter aquele ar linear que podia beirar o chato, e passou a ser mais vibrante. Ganhou novos versos e, ao final, uma terceira guitarra que realça o ambiente de sonhos que a canção, perfeitamente, passa.
A letra, de aparente simplicidade, se faz ótima se levarmos em conta a relação pais e filhos que nela existe. Aquela situação que toda criança já passou, na qual, depois de um pesadelo e do medo, acorda os pais para que tenha tranquilidade para dormir mais uma vez. "Posso te acordar? É muito tarde? Há uma história que faz meus olhos se fecharem. Você me carregaria?". Uma criança insegura, que busca segurança nas respostas vindas das constantes indagações da idade.
Outro capítulo que me fez prolongar mais ainda o meu gosto pela música foi o clipe, último lançado para o terceiro disco da banda. Com uma produção em animação gráfica, o vídeo demorou 6 meses para ser finalizado. Cheio de detalhes, a sintonia entre música e videoclipe é notória.
"How Can You Swallow So Much Sleep" é um exemplo de como ambientar e combinar letra, melodia e voz. É um modo, também, de mostrar que uma bateria marcada e potente não estraga um arranjo leve. Se usada com criatividade e sabedoria, o resultado pode ser algo ainda mais belo. É um exemplo de criatividade e reinvenção de uma música que pôde ser melhorada mesmo já sendo boa o suficiente.
Não costumo ter essa coisa de achar que música tem época pra ser ouvida. "Ah, reggae é só no verão", "música triste é sempre no frio". Acho, sim, que as músicas variam de acordo com os sentimentos. Se naquele instante você está feliz, você ouvirá algo que, da sua maneira, condiz com aquele momento. Idem se ao contrário.
"All in White", em contrapartida, tem um ar gelado. Não que seja uma "música pra se ouvir no frio", mas ela é, com certeza, uma música de bela frieza.
O baixo linear de palhetadas firmes, aliado à voz sombria de Justin Young, levam os primeiro versos da música numa cadência tristonha. Nada mais é preciso para tornar o começo mais belo, visto que tudo, na intro, é feito para que todos os instrumentos se juntem da forma mais intensa possível. E é dessa forma que a junção se dá.
O pré-refrão é feito para ser forte. A cada golpe nos pratos, uma firme palhetada nas guitarras para desembocar num primeiro refrão de surpreendente leveza, no seu primeiro instante. Até os tons novamente se elevarem, para seguira na cadência linear tão características dos Vaccines na volta para o verso. Uma impecável construção rítmica.
Daí pra frente o som fica com a cara que caracteriza a banda. E é engraçado ver que, durante todo o verso e em determinadas partes do refrão, o guitarrista principal, Freddie Cowan segura uma só nota. É claro, colocando boas doses de phaser em sua guitarra. Mas é interessante como uma só nota, somada à base natural da música, pode fazer tanto sentido nesse som.
Se alguém teve a oportunidade de ouvir somente Wreckin' Bar ou então Norgaard - ambas faixas do elogiado álbum What Did you Expect from the Vaccines? - e acabou não gostando da banda, talvez possa se surpreender com essa outra faceta.
3 - Wild Beasts - We Still Got the Taste Dancing on Our Tongues
Esse é o meu terceiro texto tendo a música dos Wild Beasts como tema principal, e nunca me sinto satisfeito. A riqueza da obra desses jovens britânicos é de fazer descobrir sensações novas cada vez que escuto.
"We Still Got the Taste...", segundo os próprios, é um "conto de insaciável desejo, cheio de obscenidade retorcida" - parece estranho, mas tenho certeza que quem ouve a música, entende a frase.
Tenho que admitir que há músicas muito mais rebuscadas e tecnicamente elaboradas no repertório dos Wild Beasts. Porém creio que nenhuma delas tem a mesma capacidade lúdica presente nesse terceiro single do ótimo (e subestimado) "Two Dancers".
O grande barato de se analisar esse som é perceber as diferenças entre versão de estúdio e ao vivo.
Como já disse em outros posts, um dos pontos mais fortes da banda é imensa criatividade e precisão do baterista Chris Talbot.
Pois bem, na versão ao vivo de "We Still Got the Taste...", Chris e o baixista Hayden Thorpe brincam com o tempo. Começam imprimindo uma cadência linear no verso, e mudam para uma cadência ondulante no refrão.
Pra ficar mais claro, é como se a música, no verso, tivesse 100 BPM (Batidas Por Minuto), e no refrão ficasse indo e voltando entre 96 e 98 BPM.
Sim, ao ouvirmos isso dá um nó no cérebro. Uma grande brisa. Coisa linda.
De resto, mais da beleza dos Wild Beasts: combinações precisas entre as vozes de Hayden Thorpe e Tom Fleming, muito uso de atabaques na bateria de Chris Talbot e muito delay na guitarra de Ben Little.
Não foi "Subirusdoistiozin", "Bogotá" e nem "Não Existe Amor em SP". A música que mais me chamou a atenção no mágico ano de Criolo foi uma que nem sequer está no "Nó Na Orelha".
"Para Mulatu" é a nona faixa do disco "Memórias Luso/Africanas" de produtor paulista Gui Amabis.
Na versão do álbum há um ar extremamente épico. Percussão que remete aos batuques do candomblé, guitarra reversa e de ritmo sem pausas. A intensão de Gui Amabis nessa música, tal como no álbum, é justamente musicar as memórias e histórias vividas pela sua falecida avó como uma bela homenagem.
A música ficou tão interessante que Criolo resolveu levá-la para os seus shows. Foi em um deles que a descobri e fiquei encantando.
Não fazia ideia do nome, mas tinha certeza que teria que achá-la. Afinal, a trajetória dos meus ancestrais também foi feita de memórias luso-africanas.
Com a banda comandada pelo baixista Marcelo Cabral e o tecladista e produtor Daniel Ganjaman a música perde o ar épico, mas ganha em intensidade e dinamismo no instrumental. Sem contar a potência interpretativa única que Criolo consegue colocar em suas obras ao vivo.
É interessante notar como uma música que se resumia na simplicidade (proposital) de percussão, guitarra, baixo acústico e voz; passa a ser representada por todos estes elementos, mais metais, bateria e teclado. Fazendo com que um arranjo, antes cru, de raízes nordestinas e negras, se torne um som moderno, requintado e que, ainda assim, mantém as suas essências.
5 - Blame Game - Kanye West (feat. John Legend & Chris Rock)
Eu, particularmente, tenho grandes chances de gostar de uma música a partir do momento que percebo sentimento nela. Tenho vários motivos pra me apaixonar por alguma canção, mas o feeling inserido, muito provavelmente, vem na frente de qualquer outro.
"Blame Game" talvez seja a canção mais sentimental que ouvi em 2011.
Kanye West sampleou "Avril 14th" do Aphex Twin, e colocou a sua batida, como de costume. Porém, dessa vez, nenhum beat fortemente marcado. Mas sim, algo leve, para acompanhar o lindo piano da versão original.
Sempre intimista, Kanye coloca na música todo o misto de amor e ódio da relação de um casal em crise.
Dois trechos me chamam atenção na canção:
"I'll call you bitch for sure
As a last resort, and my first resort
You call me motherfucker for long
At the end of it, you know we both were wrong"
e as duas primeiras estrofes do Kanye
"On a bathroom wall I wrote
'I rather argue with you than to be with anybody else'"
Possivelmente o rapper viveu isso e descreve na canção tudo detalhadamente, se juntando ao instrumental e fazendo-a parecer a trilha sonora de um filme.
Outro fator muito interessante é que, em dado momento, a voz do Kanye sofre mutações. Ora angelical, ora obscura, até mesmo demoníaca. Isso parece demostrar as mutações de personalidade vividas pelo casal. Um paradigma entre o amor dócil e as brigas perturbadoras.
John Legend suaviza os refrões, e a inusitada presença do ator Chris Rock em um monólogo tornam o clima dessa obra ainda mais épico.
Muitas pessoas dizem - e não deixa de ser uma versão bastante interessante - que a canção, na verdade, fala do relacionamento entre Kanye e fama. Se olharmos algumas partes da letra por essa ótica e lembrarmos dos episódios que o rapper viveu na carreira, a versão tem também o seu sentido.
Kanye disse uma vez que "Blame Game" era a sua predileta do aclamado "My Beautiful Dark Twisted Fantasy". Tenho que confessar que essa linda obra de quase oito minutos também caiu muito bem nas minhas graças.
Vou fazer um texto por música a partir da 5ª posição, e não mais a partir da décima como tinha dito no primeiro post.
Então... 10 - 6!
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10 - Lights Out, Words Gone - Bombay Bicycle Club
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Ouvi "Lights Out, Words Gone", pela primeira vez, ao vivo. O show que o BBC fez no Glastonbury 2011 vazou no youtube, antes do lançamento do último cd "A Different Kind of Fix".
Ao escutá-la pela primeira vez, fiquei cativado. Ainda mais naquela vibe boa dos festivais europeus, onde todas as pessoas parecem estar despreocupadas com o tempo e com a vida, se importando apenas com a boa música que está rolando e com os bons momentos divididos com os amigos.
E é esse o sentimento que essa música parece passar ao escutarmos.
O instrumental é relaxante. Baixo e bateria em plena sintonia remetem ao reggae.
O vocal de Jack Steadman mesclado com a sutileza da voz de Lucy Rose - cantora que acompanha a banda - é notável.
Impossível ouvir e não se sentir minimamente mais tranquilo.
As parcerias entre Emicida e Rael da Rima são incessantes. Na primeira mixtape do rapper paulistano, Rael aparece em duas músicas. No segundo trabalho, em uma.
A parceria se tornou mais forte ainda no lançamento de "Doozicabraba e a Revolução Silenciosa". Nesse trabalho Rael participa diretamente de três músicas - sem contar a recém lançada "Sorrisos e Lágrimas".
"Num é Só Ver" foi composta e musicada pela próprio Rael da Rima, que cedeu a canção para o disco.
A música fala de uma forma muito inteligente sobre as pessoas que julgam as outras sem conhecer. Rael, com seu jeito peculiar de rimar, conta sobre episódios que com certeza já foram vividos por pessoas que foram julgadas pela aparência, e ironiza quem só aprende a aceitar diferenças a partir de determinados trunfos.
"Igual você, gosta de julgar aparência
Nem parou pra conversar, não teve essa competência
Mas tu mudou, não sei por que
Será que foi aquelas fita que eu fiz de TV?"
PS.: Espero muito que 2012 seja o ano do Rael da Rima. Ótimo artista.
8 - The Hellcat Spangled Shalalala - Arctic Monkeys
Uma música que, à primeira vista, parece confusa. Que diabos é um "Hellcat Spangled"? "tellescopic hallelujah"?
Porém, é engraçado como nenhuma letra de Alex Turner vem por acaso. A habilidade do vocalista em narrar situações, tanto fictícias como corriqueiras, se coloca à mostra nessa bela canção do último álbum "Suck it and See".
Alex fala, nessa composição, de uma garota sagaz, esperta e inteligente. Daquelas que sempre tem qualquer um a seus pés, e que parece que nada afeta, já que ela tem "um telescópio na parede pra quando as coisas ficarem difíceis".
Tudo isso acompanhado de uma competente linha de baixo, e de bends gritados do guitarrista Jamie Cook no refrão.
Umas das músicas que mais ouvi no ano e que foge bastante das origens do Rancore.
A banda que sempre foi caracterizada por rapidez, peso e distorção, muda para guitarras limpas, bem combinadas, e solos muito criativos do guitarrista Candinho.
"Transa" é uma canção de amor e de sinceridade.
Teco, vocalista e compositor da banda, transmite na letra a felicidade de encontrar um amor real. A busca incessante para procurar e achar "algo real nessa contínua transa" que o mundo nos propõe, e como a vida pode se realizar a partir desse encontro de sentimentos verdadeiros.
O instrumental é direto e coeso. Há uma interessante quebrada logo após o refrão que desemboca nos bends do solo final.
A conclusão da melodia e da letra soa como um brinde. Um convite para aproveitarmos, da melhor forma possível, aquilo que existe de bom na vida.
Mais um som do Cage the Elephant com um ar completamente grunge - Aberdeen é a cidade que Kurt Cobain nasceu, em Washington.
Li certa vez que "Aberdeen" tem uma intro que a torna impossível de ouvir pela metade. Tenho a mesma impressão quando ouço.
A guitarra estridente começa a música e, em seguida, um baixo palhetado muito bem marcado leva o verso.
É engraçado ver como uma banda que parecia tão "de garagem" no primeiro CD cresceu musicalmente. As duas guitarras passaram a ser elaboradas de forma mais minuciosa. Prova disso é o solo de guitarra pós segundo refrão que dá realmente um feeling grunge à música.
"Aberdeen" também tem um clipe que acho bem legal. É um daqueles clipes que te ajudam a se apaixonar pela música. Se alguém nunca assistiu, vale a pena.
Primeiro single do segundo disco, "Thank You, Happy Birthday", "Shake me Down" vem pra mostrar uma outra face do Cage the Elephant.
Até então todos conheciam uma banda de ritmo acelerado, muita energia no palco, músicas despreocupadas. Enfim, era uma banda sem responsabilidades, no melhor sentido.
A energia continua, mas em "Shake Me Down", e em outras músicas do cd, o espírito melancólico do grunge toma lugar como uma das influências.
O interessante é como a canção se constrói no início. Apenas guitarras dedilhadas enquanto o vocalista Matt Shultz, com uma voz "agoniada", canta os primeiros versos. A bateria vai se apresentando com algumas pausas, entrando, saindo e atiçando a curiosidade do ouvinte para saber quando os instrumentos se juntarão de maneira constante.
"Shake me Down" é madura, inteligente, mas, ainda assim, não deixa totalmente de lado o ar aventureiro (no sentido de fazer música sem se importar com os outros) sempre tão presente na banda.
Era uma simples música bônus para os fanáticos seguidores do Rancore, mas acabou se tornando comum, pra mim, apertar o play e ver o título da canção. "Infinito" veio pra coroar o belo resultado de "Seiva".
O Rancore mudou de ares. Não largou o peso que o caracterizava, mas se aventurou em novos territórios.
"Infinito" fala de amor e da sorte de ter encontrado quem te faz bem. A letra soa como um sonoro: "eu encontrei quem eu queria. Que a sorte lhe acompanhe, e que você possa encontrar também".
O instrumental, principalmente no refrão, lembra bastante Circa Survive. Guitarras que se intercalam, baixo e bateria lineares. E para finalizar a música, uma pausa para a explosão característica do Rancore.
A potência continua, mas, parafraseando um outro som do "Seiva", de um "jeito livre", de um jeito diferente...
A saída de John Frusciante preocupou como havia de ser. "I'm With You" veio com aquele pé atrás de como seria um novo disco com o novato Josh Klinghofer no comando da guitarra - mesmo sendo com o aval e indicação de John.
O CD, ao todo, conta muito mais com o grandioso baixista Flea como figura principal. Porém, em "Brendan's Death Song", Josh aparece como um bom destaque.
A canção é avassaladora.
No começo passa a impressão de ser simples, acústica, como uma parceria entre o novo guitarrista e o vocalista Anthony Kiedis. Engano... pois a partir da entrada do baterista Chad Smith, a música entra em uma constante evolução.
Josh faz uma bela intro acústica, leva bem a música com solos e completa o seu trabalho com ótimos backing vocals. Bem como John Frusciante faria.
Mas o que mais chama atenção é a forma com que Chad Smith faz a música ganhar em emoção e intensidade. Realmente notável.
Pena "Brendan's Death Song" ser a única canção de grande destaque no álbum, mas se depender dela, o Red Hot pode seguir firme e forte.
12 - Bright Lights - Gary Clark Jr.
Um blues. Um baita blues!
Com referências aos grandes do passado, como deve ser. Mas com um ar moderno também.
Gary Clark apareceu bastante por participar dos tradicionais festivais Crossroads, organizados por Eric Clapton.
Não sei se consigo explicar tão bem o que me fez ouvir tanto esse sonzasso durante o ano.
A base da música INTEIRA fica só em duas variações do acorde Lá. Mas a voz negra, a segunda guitarra que aparece só quando é necessário, a bateria de fluência certeira e os metais (na versão ao vivo) que potencializam os solos tornam a adição de novos acordes extremamente desnecessária.
Já ouvi muita gente dizer que não há mais bluesmans hoje em dia. Será mesmo?
Quando ouvi "Get Away", tive certeza de ser alguma banda dos anos 90.
Todos os elementos da música levam a isso. A tórrida adição de fuzz nas guitarras, a letra melancólica, o vocal que pouco se destaca diante do instrumental, a influência de Pixies no baixo. Tudo é anos 90.
Talvez essa sede de querermos ver nas bandas atuais influências do que já passou, tenha feito essa música e o álbum do Yuck ser tão elogiado.
Que consigam se reinventar e não cair no mesmo
Se é que alguém realmentese importaria caso caíssem...
O primeiro single do álbum "A Different Kinf of Fix" saiu sob enorme desconfiança. Aquela, antiga, que sempre desafia bandas, antes apontadas como salvadoras, a trilhar dois caminhos: a glória ou o esquecimento.
"Shuffle" veio sem grande alarde, com um clipe simples, sem aparentar grandes pretensões, como parece ser do estilo dos talentosos garotos do BBC.
A música é dúbia. Há momentos em que, ao ouvir, a impressão passada é de tristeza, de ser aquelas para se escutar em um dia cinzento. Mas em outras oportunidades parece ser feita para dançar.
Essa sensação não é gratuita. Uma das grandes características do Bombay é mesclar melodias que aparentam tristeza, a batidas precisas, constantes, com bumbo e caixa sempre bem marcados.
Certa vez, no show deles, um repórter gringo me perguntou se eu achava que eles ainda seriam grandes por aqui. Se serão, não sei, mas espero muito que sim...
Wild Beasts é, com toda a certeza, a surpresa mais grata que tive esse ano. Sempre, enquanto ouço, me pergunto: "Por que não conheci isso antes?".
"Two Dancers", segundo disco dos ingleses, é grandioso. É perfeito pra quem admira instrumental rebuscado, pra quem curte indie, para qum gosta de músicas que demonstram emoção pela parte vocálica... enfim, é um baita disco.
Em "This is Our Lot" dois fatores me chamam muita atenção.
Primeiro: a voz do baixista e vocalista Hayden Thorpe, que atinge os graus mais altos, tanto de agudos, quanto de graves. Falsetes perfeitos.
Segundo: o arranjo do baterista, Chris Talbot.
Depois de ouvir muitas músicas da banda, passei a considerá-lo um dos meus bateristas prediletos.
Nessa faixa, Chris dá um banho de criatividade ao misturar quase todos os elementos do seu drum kit para fazer uma só levada que perdura por praticamente toda a música - e ainda os apresenta de forma gradativa, como quem fala: "tenta aí em casa".
Lá estava eu, voltando pra casa e pensando na vida, quando no rádio do carro começo a ouvir algo que me interessa. Enquanto escutava o instrumental, pensei: "Po, que soul music bacana. Deve ser alguém das antigas...".
Me surpreendi positivamente quando a voz principal adentrou a canção. Realmente não esperava que fosse uma música do Lenny Kravitz.
"Black and White America" tem letra direta e intimista. Kravitz fala de sua experiência de vida sendo filho de pai branco e mãe negra, e tendo que aprender a conviver diariamente com os preconceitos e olhares estranhos direcionados a sua família. Tudo isso acompanhado de um instrumental absolutamente soul music.
"There's no division! Don't you understand? (...) We're black and white America"
17 - Buen Salvaje - La Vida Bohéme
Uma grata surpresa nesse ano. Conhecia bandas de rock vindas da Argentina, México e Colômbia. La Vida Bohéme é uma banda de rock vinda da Venezuela, país que raramente exporta bandas do estilo.
O primeiro álbum da banda, "Nuestra!", foi bastante elogiado e chegou até a concorrer no Grammy Latino. As influências vão do indie ao punk rock, passando também, é claro, pela música venezuelana.
Em "Buen Salvaje" há um ar sombrio durante o verso. O riff torto e a bateria se utilizando apenas dos graves vão subindo até encontrar um simples e inteligente refrão, que utiliza apenas de assovios para conseguir ficar na cabeça.
Se você nunca foi tão chegado em rock latino, talvez essa seja uma boa experiência.
O último disco do multi-instrumentista Curumin foi "Japan Pop Show", de 2008. Mas o que continua ecoando nos meus auto-falantes ainda é "Achados e Perdidos" de 2003.
Nele, a influência de Jorge Ben e Trio Mocotó, tanto na sonoridade quanto nas letras, é gritante. Cavaquinho e/ou violão, um baixo bem marcado, a batera com o groove peculiar do Curumin e uma MPC modernizam o estilo nesse álbum.
"Tudo Bem, Malandro" vem com todos esses elementos e uma letra divertida. O som conta sobre um trabalhador que, apesar de todos os problemas da vida, tem consolo de saber que vai ter o seu tempinho pra sair e aproveitar um samba.
"Acordo logo cedo de manhã, busão lotado ligo o walkman, trabalho o dia inteiro no calor (...) Mas tudo bem, malandro. Porque hoje tem balanço!"
Tudo isso num ritmo que parece ter vindo da malandragem pra malandragem.
Uma ode aos anos 80. É assim que funcionam as músicas dessa dupla de Nova Iorque que misturam os sintetizadores da forma em que eles foram descobertos há 30 anos atrás, com a batida e fluência da dance music atual.
"Wait & See" tem uma letra simples, uma batida dançante que percorre a música sem mudança de ritmos e um refrão que mantém o tom de voz do verso. Ingredientes que poderiam fazê-la passar despercebida, porém trazem um ar daquilo que ficou pra trás.
O clipe é um dos mais legais que vi no ano. Os pais (de verdade) da dupla se vestem como os filhos e atuam como se fizessem as mesmas atividades que eles - tocar, andar de skate, metrô e etc. Vale a pena conferir.
Haikaiss é um grupo de rap diferente. Os integrantes não vieram da periferia, não fazem letras que retratam o cotidiano do povo humilde ou de cunho socialmente engajado.
Em "Filosofia de Boteco" a temática são as baladas e como a bebida se apresenta no comportamento daqueles que a utilizam. Um campo de criatividade que, fatalmente, ocasionaria uma letra pobre e de fraco conteúdo. Porém o que se vê é um retrato inteligente, bem contado e bem humorado dos "dois copos de vodka e um copo de uísque" tão presentes na noite paulistana.
23 - All of the Lights - Kanye West
Kanye West é um cara diferente. Não sei nem se pode mais ser considerado um rapper. Talvez possa em sua essência, mas a verdade é que a sua sede é imensa e visa lugares cada vez menos explorados na música atual.
Perto de outras músicas do elogiado "My Beautiful Dark Twisted Fantasy", "All of The Lights" talvez seja a mais feita para ser sucesso. Conta com a participação da popstar Rihanna, e do ótimo e polivalente Kid Cudi e tem um refrão feito para grudar.
A batida, sempre um dos pontos fortes da criatividade do Kanye, é de uma potência que chega a lembrar os dubsteps do Skrillex, e se funde com uma letra intimista que consegue transmitir a emoção dos dias turbuluentos que West viveu ao ser praticamente julgado em rede nacional pelas suas atitudes.
Mais um rap em grande forma em um disco dificílimo de escolher músicas favoritas. Cada som de "Nó Na Orelha" tem uma peculiaridade, um ponto alto. "Sucrilhos" foi a segunda música a me viciar de fato.
A primeira versão, lançada quando o "Doido" ainda era parte do Criolo, hoje em dia, se tornou estranhíssima de escutar. Os atabaques, a flauta doce e o baixo ao melhor estilo "De Esquina" (clássico do rapper Xis), deram novo sentido a uma música que serve como um convite (com ressalvas) àqueles que ingressam agora no mundo do rap.
"Pode colar, mas sem arrastar. Se arrastar, favela vai cobrar!".
Desde a primeira frase, está música consegue lhe arrancar um sorriso.
Com uma voz rouca e meio tímida o vocalista do Cérebro Eletrônico, Tatá Aeroplano, traz na primeira estrofe (sem nenhum acompanhamento) o bom humor que seguirá pelo resto da letra que fala sobre o arrependimento daquela mancada que qualquer homem já deu com a sua amada.
"Decência" é uma canção boba (no melhor sentido da palavra). Feita pra divertir. Um ritmo dançante, guitarras limpas e acordes animados levam uma letra bacana, sem muitas voltas e de fácil entendimento.
A preguiça me consumiu. Fiquei muito tempo sem postar, mas cá estou mais uma vez pra um post que será bem... digamos... preguiçoso.
Farei aqui um simples ranking com as 30 músicas que marcaram meu ano. Não necessariamente músicas lançadas em 2011. Na verdade minha proposta é de dividir, com quem eventualmente ler, as impressões e sensações que esses sons me passaram durante o ano.
Começo com as cinco primeiras músicas (posições 30 à 26). O ranking continuará fluindo de cinco em cinco até chegarmos a décima posição. A partir daí farei um post por música.
Então, vamos lá!
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30 - Darling Buds of May - Viva Brother
Um rockzinho aparentemente inofensivo desses quatro garotos de Slough, Inglaterra.
Desde o começo já se percebe a clara influência do Brit-Pop encorpado, principalmente, por Blur e Oasis. O riff inicial com guitarra limpa aparenta ser pouco pretencioso, mas se torna poderoso a partir da entrada gradativa da bateria e do baixo, respectivamente.
O refrão é grudento. A voz potente do vocalista Leonard Newell, acoplada aos ótimos backing vocals (que se potencializam mais ainda ao vivo) torna impossível de não repetir o berrado "maaaay!" mentalmente por um bom tempo.
O artista mais comentando de 2011, em uma música comentada de forma inversamente proporcional.
Lion Man é cheia de sentimento. Mescla a potência e a agressividade peculiares nos versos hip-hop de Criolo, com a suavidade de sua voz. O que normalmente é feito por duas vozes na maioria dos raps, nesta música é representada a uma só voz pelo polivalente artista paulistano.
Ao vivo, como boa parte de suas obras, a música se torna uma imensa celebração rap. Aos gritos de "só os loucos!", o público vai ao delírio como uma inconsciente homenagem aos grande clássicos como "Hip Hop Hooray" do Naughty By Nature.
28 - The Death of You and Me - Noel Gallagher's High Flying Birds
A volta de Noel Gallagher era esperada. A banda do seu irmão, Beady Eye, teve estreia mediana, o que trazia ainda mais expectativa girando em torno daquele que sempre foi visto como o cabeça do Oasis.
Assim que saiu "The Death of You and Me" como o primeiro single do homônimo álbum de estreia, pudemos ver que Noel não decepcionaria.
Ao seu estilo, usando a simplicidade de forma grandiosa, Noel trouxe uma balada que pode ser tocada tranquilamente a voz e violão, mas que ao mesmo tempo tem a disponibilidade e a necessidade de trazer elementos de orquestra como metais e violinos. Ponto pro Gallagher mais velho.
A música mais sentimental e intimista do disco "Samba 808" traz elementos eletronizados com guitarras limpas e uma bela elaboração melódica.
A letra parece encaixar perfeitamente com os convidados especiais, Mallu e Marcelo Camello, pela doçura entoada na interpretação do casal. Boa canção para se ouvir tranquilo ou na companhia da pessoa amada.
Que bela maneira de começar um belo álbum! "Bridges Burning" é o bom e velho rock n roll do Foo Fighters. Potência desde a primeira batida na caixa de Taylor Hawkins, e um grande berro logo de entrada como se Dave Grohl falasse: "sim, nós estamos aqui, e já fazem 15 anos".
Como sempre a distorção dos bicordes é a tônica. Ainda mais com a adição do folclórico Pat Smear - ex guitarrista de apoio do Nirvana e do próprio Foo - a formação oficial da banda. Três guitarras barulhentas, um baterista que sabe mesclar agressividade e técnica, e Dave Grohl com sua voz melhor do que nunca. Desse jeito a vida é longa...