terça-feira, 1 de junho de 2010

Imperial State Electric - Um Imperador e Um Objetivo




Um solitário imperador que, em pleno século XXI, tem a missão de tornar próspero um Império. Mas um Império? Daqueles tipo Império Romano ou Bizantino? Sim, mais ou menos. Todos sabem que em tempos atuais, um modelo tão arcaico de governo não seria tão bem vindo na sociedade. Ainda mais quando alguns destes, outrora grandes e luxuosos, se baseavam na escravidão, sistema que para os escravos nunca foi benéfico - apesar de algumas exceções, como escravos que ganhavam liberdade após longo período de trabalhos prestados, mas isso não vem ao caso.

Você deve estar se perguntando se entrou mesmo num blog de música... Sim! Você está no lugar certo. Toda essa mini - e talvez desnecessária - explicação histórica só veio à tona pra nos fazer entender um pouco sobre Nicke Royale, ex-vocalista dos Hellacopters, e ex-baterista do Entombed e The Solution. Este sereno sueco leva consigo uma sede enorme de dominar territórios. Mas não necessariamente países ou cidades. Ele traz, na verdade, a ambição de dominar os ouvidos de cada um daqueles que esqueceram o quanto o rock n' roll de raiz é vital. Daqueles que se entregaram a tudo aquilo não passa de uma calda imensamente ramificada de uma árvore genealógica sem fim, chamada rock n' roll.

"Mas e aquele papo todo de escravidão e blá blá blá ?"
Pois bem, no Estado Imperial Elétrico (Imperial State Electric) as regras são simples: há um imperador que tem seus escravos e estes o servem. Mas a diferença deste império para os outros, se encontra justamente no imenso prazer de todos os participantes em labutar incessantemente em prol do interesse do comandante, ou seja, o reerguimento do rock. O imperador é o anteriormente citado Nick Royale, e os seus trabalhadores são variados, indo desde de Dregen (guitarrista do Backyard Babies) até Anders 'Boba Fett' Lindström (ex-pianista dos Hellacopters).

Toda essa grande viajem alimentada por Nick e seus seguidores, vem coroada com o homônimo álbum de estréia da Imperial State Electric, que traz, com o louvor peculiar dos suecos, o prazer inigualável de se escutar por inteiro um disco do mais puro rock n' roll.

Logo na primeira música do trabalho já se pode perceber o espírito da banda. 'Holiday From My Vacation' abre o álbum embalada com um riff e uma sonoridade que nos remete, simultaneamente, à Alice Cooper e Dead Kennedys. Contando com a bateria repleta de viradas, executada por Anders Härnestam (Weeping Willows) e claramente influenciada por Mitch Mitchell (The Jimi Hendrix Experience) a música tem um refrão fácil de guardar, e uma ponte para o solo de dar inveja a qualquer músico, levando a melodia para outra dimensão, e a trazendo de volta para o pré-refrão.

O disco prossegue desembocando na primeira música divulgada pela banda, a grudenta 'Lord Knows I Know That It Ain't Right'. Com os peculiares vocais de Nicke em grande estado, o som traz no começo um riff simples e inteligente que acompanha a subida da bateria - que, aliás, abusa de viradas muito bem encaixadas. O solo tem a marca de uma guitarra ex-Hellacopter e a música mostra a grande influência de David Bowie e The Who.

Pra encerrar detalhes, há de se falar da inteligentíssima 'Deja Vu', oitava faixa do álbum. Repleta de Blue Öyster Cult e Thin Lizzy como influências, 'Deja Vu' é uma daquelas músicas que o músico ouve e pensa "nossa... como eu nunca pensei nesse riff antes?", fazendo-o olhar para Royale e se convencer de rock é - ou parece - muito simples. A cozinha da música (baixo e bateria) é bem marcada naquele famoso compasso "1,2", enquanto carrega o som até um refrão extremamente explosivo.

A beatlemaníaca 'I'll Let You Down'; 'Lee Anne' com muito de Kinks, Cheap Trick e Bowie e 'Diseased Pieces of My Heart' também são grandes destaques deste trabalho que pode ser ouvido do início ao fim sem incômodo algum.

Outro aspecto interessantíssimo a se destacar é a produção musical. A vontade de resgate das raízes era tão forte por parte de Nicke, que até mesmo a engenharia de som foi feita com o intuito de deixar um ar mais 'retro' ao disco.

A saga continua e, cada vez com mais inteligência, experiência e esperança, a sede por mudanças no cenário musical se aflora nos pensamentos deste que é um dos mais subestimados músicos da geração: Nicke Andersson, o popular Nicke Royale.

Myspace
http://www.myspace.com/imperialstateelectric

Download do álbum
http://www.gigasize.com/get.php?d=zd70552c7qb

sábado, 6 de março de 2010

Closure In Moscow - A Forma Somada ao Conteúdo




Trago nessa nova postagem certo tom de protesto no que diz respeito ao preconceito e pré-julgamento de bandas da nova safra. Há um certo tom de desdém e generalização quando uma banda de garotos jovens se apresentam no cenário do rock. É bem verdade que boa parte dessas bandas são limitadas, e se utilizam de forma demasiada da imagem, porém muitos julgam muito a aparência, deixando pra trás aquilo que de fato tem que ser analisado: a música.

O Closure In Moscow se enquadra bem nesse tipo de análise precipitada, mas faz todas caírem por terra quando sua música é apresentada.

Bastante embasados em bandas modernas como At The Drive In, Circa Survive e The Mars Volta, a banda nasce na Austrália com o desejo de ganhar espaço entre a numerosa safra de bandas capturadas por pequenas gravadoras americanas. Objetivo que posteriormente seria atingido.

Formada em 2006, o primeiro passo da banda foi fazer shows pequenos em sua cidade natal (Melbourne), em busca de popularidade. O desenvolvimento foi tão rápido que na metade de 2007 estavam abrindo shows pra bandas populares dos EUA, como por exemplo, a Saosin. Tal performance abriu os olhos de gravadoras locais, basicamente a Taperjean Records, que deu a estrutura necessária para o Closure gravar seu primeiro trabalho.

A amostra de qualidade do Closure in Moscow ficou evidente do lançamento do EP intitulado 'The Penance and the Patience'. Com apenas 6 músicas, o garotos de Melbourne colocaram toda sua criatividade em prática, explicitando o estilo instrumental que marca a banda: guitarras bem combinadas e arranjadas com bastante uso de efeitos, baixo que segue os riffs e uma bateria sempre com muita quebra de ritmo.

A primeira grande música da banda fica por conta de 'We Want Guarantees, Not Hunger Pains' que abre o primeiro trabalho. Potente desde o início, a música é um grande cartão de visitas àqueles que apreciam riffs pouco convencionais, já que desde a introdução até o refrão a influência de Omar Rodriguez López (The Mars Volta) é nítida. Com um refrão diferente, repetitivo, mas muito potente na voz do frontman Christopher de Cinque, o Closure in Moscow começa a ganhar o seu primeiro grande espaço na cena underground.

O talento da banda rendeu o tão sonhado contrato com uma gravadora norte-americana. A Equal Vison Records, especializada em revelar bandas pouco conhecidas no mainstream, viu nos garotos um diferencial, dando assim o apoio para a gravação do álbum de estreia do Closure, entitulado 'First Temple'.

Com tal apoio, os australianos abusaram da criatividade e fizeram um grandioso trabalho de estréia. 'First Temple' é um daqueles discos que o ouvinte aprecia sem se incomodar com nenhuma música e se surpreende ao perceber que chegou ao fim.

O primeiro single fica por conta de 'Sweet#hart', música que tem a dose necessária pra ser grudenta e, ao mesmo tempo, rebuscada. O arranjo privilegiado na bateria de Beau McKee traz a química perfeita ao se encontrar com a diferenciada combinação de guitarras Mansur Zanelli (que além de tudo faz um perfeito backing vocal) e Michael Barret (encarregado da maior parte dos efeitos nas guitarras da banda), músicos que fogem das palhetadas óbvias.

Há de se destacar no álbum algumas belas músicas. 'Had To Put It In the Soil' é a maior marca da criatividade dos guitarristas na elaboração de seus riffs e além de tudo, possui uma psicodelia invejável a qualquer conjunto de Rock Progressivo; 'Deluge' mostra uma bela combinação vocálica, sendo a "balada" do CD, mas é claro, com a roupagem nada convencional que é a peculiaridade da banda; e 'Couldn't Let You Love Me', canção instrumental acústica que, surpreendentemente, têm clara influência do Flamenco; mostrando, de forma definitiva, que juventude não é sinônimo de falta de virtuosismo instrumental.

Enfim, o Closure in Moscow é um tapa na cara dos insistentes saudosistas, os quais fazem questão de rebaixar a safra atual de bandas. O rock de qualidade ainda existe, está apenas tímido, atrás de um imenso muro conhecido como A Grande Indústria Fonográfica, o qual poucos bons artistas conseguem transpor.



Closure in Moscow - We Want Guarantees, Not Hunger Pains


Closure in Moscow - Sweet#hart

terça-feira, 2 de março de 2010

Oceansize - Virtuosismo em Prol do Sentimento


Paciência, atenção, atração e alucinação. Palavras que nem sempre podem ser colocadas na mesma cabeça em qualquer circunstância, mas que são essenciais quando o assunto tratado é um estilo esquecido, pouco aclamado, fadado à extinção, mas que sempre foi e sempre será lembrado como grandioso: o Rock Progressivo.

Tendo seu pioneirismo e seu auge na década de 70 com o Pink Floyd, Yes, Rush e Genesis o estilo foi sobrevivendo à custa de gênios da época, que sempre foram lembrados por seus shows grandiosos e virtuosismo nas elaborações instrumentais. Mas iriam haver filhos de sucesso para o Rock Progressivo ou a indústria fonográfica tenderia a esquecê-lo? Segunda opção.

A partir dos anos 80 o estilo ficou em coma. Com o crescimento da New Wave e Hair Metal, a forma foi se sobrepondo aos solos, arranjos e virtuosismo; e houve maior busca àquilo que cairia no gosto popular. Já nos anos 90, mostrou sinais de vida com a chegada, principalmente, de bandas como Dream Theater e Tool, sendo esta última uma vertente inovadora para o Progressivo, influenciando diretamente aquela banda que, nos anos 2000, tentaria dar continuidade ao gênero: o Oceansize.

O Rock Progressivo renovado pelo Tool, se pautava em haver menos solos grandiosos, e mais elaborações melódicas e rítmicas, nunca estando um patamar abaixo dos outros por este motivo. Tal empreitada serviu como maior inspiração para 5 rapazes de Manchester, que buscavam apenas fazer e tocar o que gostavam, e o que sentiam ter capacidade para levar em frente.

O Oceansize começa sua trajetória em 1998. Sem grande apoio, conseguem lançar seu primeiro álbum apenas cinco anos depois, em 2003 atendendo pelo nome de 'Effloresce'. Repleto de psicodelia, o trabalho é completo, há guitarras distorcidas e limpas em 'Catalyst', e há emoção e rancor em 'You Wish'. Mas o cume fica por conta de 'Amputee', que com uma belíssima utilização de tremolo, nos faz fechar os olhos e imaginar cada passagem da música com as imagens que nos vêm à mente.

O segundo trabalho lançado em 2005 e intitulado 'Everyone Into Position', seguiu uma linha mais séria, trazendo à tona uma banda amadurecida. A grande diferença fica por conta das melodias de características mais tristes, e a maior inserção de pianos e teclados.

A banda chega à sua melhor forma em 2007 com o lançamento do grandioso 'Frames'. Nunca as três guitarras do Oceansize estiveram tão sintonizadas quanto na segunda faixa do disco e primeiro single que atende pelo nome de 'Unfamiliar', uma obra que traz, além da perfeita combinação entre as cordas, um arranjo privilegiado do baterista Mark Heron, que dita o ritmo da canção em todos os momentos em consonância com o belo baixo palhetado de Steve Hodson. A banda também traz no álbum certo engajamento com a faixa 'Commemorative 9/11 T-Shirt', que ironicamente fala do fatídico 11 de Setembro.

Se o Rock Progressivo vai sobreviver por muito tempo? Difícil afirmar. Mas mesmo repaginado, renomeado ou reestruturado, sempre haverá amantes do complexo. Aquilo que se encontra fora de simples acordes, refrões grudentos e apelos estilísticos. Aquilo que se chama virtuosismo.

http://www.myspace.com/oceansizeuk

Oceansize - Unfamiliar (Live)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Phoenix - Aclamação Como Mágica


Pode-se dizer que boa parte dos grandes destaques da última década no cenário do rock, vieram de uma terra chuvosa, com aparência cinzenta, de jovens sedentos por música para preencher espaços vazios em suas cabeças e corações. Ingredientes de um lugar que atende pelo nome de Reino Unido.

A mistura do fervor do Brit-Pop de Oasis e Blur com a inovação implantada pela trupe de Thom Yorke no Radiohead, resultou naquilo que, para os mais íntimos, ficou mundialmente conhecido como 'Indie Rock', ou apenas 'Rock Alternativo', caso não se tenha tanta familiaridade com o estilo.

Os filhos de tal mistura passaram a buscar, cada vez mais, a curiosidade de reciclar seu próprio estilo. Houve desde a mistura com o reggae do Kooks, até sagacidade nas elaborações melódicas e rítmicas nos vocais de Alex Turner no seu Arctic Monkeys. Todos obtiveram sucesso em suas empreitadas e marcaram a década, mas era de se esperar que algo mais interessante viesse no final. Tal tarefa ficou por conta daqueles que, historicamente, são conhecidos como fechados em seu próprio idioma, orgulhosos, porém nunca menos talentosos: os franceses, por intermédio do Phoenix.

A banda nasceu da mesma sala da escola do Daft Punk. Porém, como um universitário que não termina bem seu curso, acabaram vendo os seus ex-companheiros robotizados alçarem vôos rasantes, e explodirem nas discotecas de todo o mundo.

O Phoenix labutou. Lançaram o álbum 'United' em 2000, e conseguiram com ele um bom começo, já que tiveram a o single 'Too Young' presente na trilha do filme que no Brasil ficou conhecido como 'Encontros e Desencontros'. Todavia, o feito ainda era insuficiente no sucesso dos Bleus.

A surpresa veio no lançamento do disco 'Alphabetical'. Mantendo o estilo que primou pela mistura de uma percussão dançante, arranjos inteligentes de violões e teclado, e um vocal bêbado e ainda assim agradabilíssimo de Thomas Mars. Singles como 'Run Run Run' e 'Everything is Everything' os levaram a um bom patamar na Europa, mas ainda longe dos seus compatriotas do Daft Punk. Distância assim alargada com o insucesso do 3º trabalho, intitulado 'It's Never Been Like That', título que parece até fazer referência à fase que o Phoenix vivia.

A trajetória nada linear do grupo chegou ao seu topo em 2009. Em um ano em que todos os olhares se voltavam para controverso novo trabalho dos Arctic Monkeys, e para a surpreendente formação do Them Crooked Vultures, o verdadeiro destaque finalmente chegou para os incansáveis de Versailles.

O 4º álbum 'Wolfgang Amadeus Phoenix' apareceu como mais um na multidão, e terminou como um dos melhores discos da década. Caracterizado pela maior inserção de teclados e sintetizadores, bons arranjos de guitarra e letras que falam de grandes artistas como Franz Liszt presente no 2º single 'Lisztomania'. O Phoenix fechou com chave de ouro uma década de riffs repetitivos e pouca originalidade na combinação instrumental e elaboração silábica das composições.

Agora sim eles podem olhar para seus companheiros metálicos do Daft Punk e exaltar a velha máxima: "Os últimos, serão os primeiros".



www.myspace.com/wearephoenix

Phoenix - 1901 (Live on Letterman)