quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Música e futebol - facetas de duas paixões (Parte 1/3)

Há tempos sempre quis fazer um texto juntando os dois assuntos que mais gosto desde que me conheço por gente. Crescendo numa família festeira, que sempre amou se reunir pra assistir futebol, assar carne e ouvir samba-rock, era impossível que o esporte bretão e a música estivessem separados na minha lista de eternas paixões.

Dessa forma, nesse post e nos dois seguintes, falarei de algumas músicas que ouvi desde pequeno em todos esses encontros familiares, e de outras que me ganharam pela narrativa dessa junção ao longo dos anos.
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É impossível falar de música e futebol sem falar de Jorge Ben. Este é o homem que melhor consegue expressar o futebol em canções. Chico Buarque tentou falar dessa paixão nacional em "O Futebol", mas o maior compositor brasileiro é uma espécie de Xavi ou Pirlo nesse quesito. Por mais bonito que o faça, jamais vai ter a ginga necessária para encantar e ser ovacionado por multidões.

Jorge Ben não tem a métrica perfeita de Chico, mas encanta pela simplicidade. Todos conhecem a narrativa do "verdadeiro gol de placa" de Fio Maravilha, e do ponta de lança africano Umbabarauma, mais famoso até que o Drogba para os brasileiros de mais idade.

No entanto, Deco, meu pai, e Duda, meu tio, grandes amantes de Jorge Ben como eu, em seus tempos de jogadores de várzea nunca foram fazedores de gol como os anteriormente citados. Talvez até sonhassem ser, mas a realidade proporcionou a posição de zagueiro (meu pai também jogou de goleiro, mas no futsal) para a capacidade futebolística deles. E isso foi até bom, pois, se não fosse por isso, é provável que a música "Zagueiro" não tivesse tanto destaque quando nos reuníamos.

A facilidade de Jorge Ben em falar sobre futebol nas letras era tão grande que até música pra segunda posição mais ingrata do futebol ele fez. Chega a ser engraçado, mas até o atacante mais preguiçoso na marcação, ao ouvir essa música, percebe a beleza da posição.

"Ele é um bom zagueiro / É o anjo da guarda da defesa / Mas para ser um bom zagueiro / Não pode ser muito sentimental / Tem que ser sutil e elegante / Ter sangue frio, acreditar em si e ser leal"

Talvez dê pra se contar nos dedos de uma mão os zagueiros que reúnam todas essas características. Assim como é quase impossível de se ver músicos com o dom de juntar futebol e melodia como faz Jorge Ben. Dessa forma, é bom ver que, mesmo que indiretamente, eternos monstros do desarme como Beckenbauer, Maldini, Baresi - e por que não Deco e Duda? - terão, também, o seu lugar na eternidade musical.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Uma nova tendência no rap gringo?

O californiano Kendrick Lamar, um dos mais elogiados da nova safra


Pois é. Depois de um longo e tenebroso inverno parece que a vertente mais contemporânea da black music começa a passar por concretas revitalizações.

Animados pelos recentes sucessos de Kanye West e Jay-Z, tanto com os trabalhos solo de cada um, quanto com  "Watch the Throne", aclamado disco em conjunto da dupla, novas caras e novas tendências passam a ganhar força. Artistas de diferentes assuntos e métodos de criação, mas com um fator em comum: a quebra de laços com o Gangsta Rap moderno, a última vertente de sucesso do gênero.

Nos anos 2000 rappers como 50, Cent, Nelly, Ja Rule, Fat Joe, entre outros, reviviam o Gangsta Rap. Porém, diferente das épocas de Tupac e Notorious, em que realmente havia rixas e muita rivalidade, a modernização desse gênero era, de certa forma, forçada e de mau gosto.

No fim da década, com a ascensão de Kanye West, a mudança de vertente de Jay-Z, e o surgimento de rappers como Lupe Fiasco, um novo jeito de versar passou a ganhar força. Com disco "Graduation", Kanye, entre outros assuntos, fala sobre julgamentos em Can't Tell me Nothing e sobre fama em Flashing Lights. Jay-Z fez "American Gangster", a ótima trilha sonora do filme "O Gângster" estrelado por Denzel Washington, contando com o mafioso do longa como personagem principal deste trabalho. Já Lupe Fiasco, em seu primeiro disco, "Food and Liquor", versava sobre assuntos variados que iam desde a relação EUA x Iraque, até o preconceito e repressão barata de policiais contra skatistas.


Defensor do fim da homofobia no rap, A$ap Rocky fez inusitada parceria com a cantora Lana del Rey

Hoje em dia artistas como Kendrick Lamar, Childish Gambino, Wiz Khalifa, J Cole e A$ap Rocky renovam o estilo. Cada um com um estilo bem peculiar, geralmente oriundo dos lugares em que cresceram, mas com um leque maior de assuntos, beats, flows e, consequentemente, público. O rap agradece.


Kendrick Lamar - A.D.H.D.



A$ap Rocky - Ridin' feat Lana del Rey



sexta-feira, 22 de junho de 2012

O "Boniverismo" e a necessidade de não estagnar

Justin Vernon, cabeça chefe do coletivo Bon Iver

Ultimamente, no cenário musical, venho me atentando a alguns fatos. O principal deles é a ascensão e a veneração a toda qualquer novidade que tenha  efeitos na voz, instrumental às vezes descompassado, linearidade na tonalidade vocálica e no instrumental, fatores que, carinhosamente apelidei de "Boniverismo".

Primeiramente gostaria de deixar bem claro que meu objetivo não é desvalorizar estas bandas. Creio que são estilos válidos e que me agradam em sua boa parte. Mas vejo no cenário musica atual uma predominância de bandas que tem esta vertente. E, pelo que vejo, as novidades que surgem estão indo cada vez mais nessa direção.

O disco "Bon Iver, Bon Iver" é um marco. Já percebe-se em muito pouco tempo, bandas influenciadas por alguns elementos desta obra em faixas de trabalhos recentes como por exemplo Poliça em Wondering Star Lay you cards down (que conta com presença de Michael Noyce, homem forte do coletivo de Winscosin que não vive apenas de Justin Vernon), Grimes em Visions, Frankie Rose em Know Me e Kindness em House e no tom de voz de Cyan. Estas são todas bandas que me interessaram como boas surpresas, porém, temo que a tendência seja termos cada vez mais novidades neste estilo. É bom? É. Mas desgasta bastante e chega a ser enjoativo, ao meu ver.

Channy Leaneagh, a bela e carismática vocalista do Poliça

Um ou outro pode me dizer que há muitas diferenças entre as bandas citadas e Bon Iver. Sim, inúmeras. Bon Iver tem muito mais influências do folk do que todos esses artistas, e só isso já daria uma série de argumentos para diferenciá-las. A questão é o feeling, a ambientação que essa nova safra carrega. Todas bem parecidas.

Sinto falta da mistura. Da maior experimentação de ritmos e influências. De variar um pouco este clima "inverno", sonolento, passado sempre por Bon Iver, James Blake, e seus seguidores.
Que as bandas busquem mais influências, misturem, se aventurem e se divirtam. Música é feita para isso, afinal.


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Minhas músicas de 2011 - Parte 10 - #1 - Bombay Bicycle Club, How Can You Swallow So Much Sleep

01 - Bombay Bicycle Club - How Can You Swallow So Much Sleep?


Primeiramente gostaria de deixar bem claro que isso aqui não tem, nem nunca teve o objetivo de ser uma verdade absoluta. Não tem nenhum critério coerente e condizente com o ano das bandas ou com as listas das grandes revistas e/ou sites de música. Aqui, em pauta, estão as bandas que eu mais ouvi no ano, e, dessa forma, fui destrinchando cada aspecto que me fez me apaixonar por tais músicas.

Em alguns momentos coincidências podem ter havido. Bandas que se destacaram no ano podem, também, ser as bandas que mais se destacaram nos meus ouvidos. Aqui, agora, não é o caso.


O primeiro lugar da minha lista é de uma banda pouquíssimo falada em 2011, mas que, com uma música, fez o meu ano.


O que dizer de um som que começou a fazer minha cabeça por volta de novembro de 2010, e que eu continuo ouvindo sem parar até hoje?


É engraçado. Nesse período eu sempre achava que, em algum momento, "How Can You Swallow So Much Sleep" se esvairia da minha cabeça.


Quando enjoei da primeira versão (a lançada como parte da trilha sonora da Saga Crepúsculo), surgiu a versão oficial, presente no disco "A Different Kind of Fix", do primeiro semestre de 2011. Com um novo arranjo do criativo baterista Suren de Saram, a música ganhou em intensidade. Deixou de ter aquele ar linear que podia beirar o chato, e passou a ser mais vibrante. Ganhou novos versos e, ao final, uma terceira guitarra que realça o ambiente de sonhos que a canção, perfeitamente, passa.


A letra, de aparente simplicidade, se faz ótima se levarmos em conta a relação pais e filhos que nela existe. Aquela situação que toda criança já passou, na qual, depois de um pesadelo e do medo, acorda os pais para que tenha tranquilidade para dormir mais uma vez. "Posso te acordar? É muito tarde? Há uma história que faz meus olhos se fecharem. Você me carregaria?". Uma criança insegura, que busca segurança nas respostas vindas das constantes indagações da idade.


Outro capítulo que me fez prolongar mais ainda o meu gosto pela música foi o clipe, último lançado para o terceiro disco da banda. Com uma produção em animação gráfica, o vídeo demorou 6 meses para ser finalizado. Cheio de detalhes, a sintonia entre música e videoclipe é notória.


"How Can You Swallow So Much Sleep" é um exemplo de como ambientar e combinar letra, melodia e voz. É um modo, também, de mostrar que uma bateria marcada e potente não estraga um arranjo leve. Se usada com criatividade e sabedoria, o resultado pode ser algo ainda mais belo. É um exemplo de criatividade e reinvenção de uma música que pôde ser melhorada mesmo já sendo boa o suficiente.


"How Can You Swallow" é a minha música de 2011.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Minhas músicas de 2011 parte 9 - #2 The Vaccines - All in White

2 - The Vaccines - All In White


Não costumo ter essa coisa de achar que música tem época pra ser ouvida. "Ah, reggae é só no verão", "música triste é sempre no frio". Acho, sim, que as músicas variam de acordo com os sentimentos. Se naquele instante você está feliz, você ouvirá algo que, da sua maneira, condiz com aquele momento. Idem se ao contrário.


"All in White", em contrapartida, tem um ar gelado. Não que seja uma "música pra se ouvir no frio", mas ela é, com certeza, uma música de bela frieza.

O baixo linear de palhetadas firmes, aliado à voz sombria de Justin Young, levam os primeiro versos da música numa cadência tristonha. Nada mais é preciso para tornar o começo mais belo, visto que tudo, na intro, é feito para que todos os instrumentos se juntem da forma mais intensa possível. E é dessa forma que a junção se dá.

O pré-refrão é feito para ser forte. A cada golpe nos pratos, uma firme palhetada nas guitarras para desembocar num primeiro refrão de surpreendente leveza, no seu primeiro instante. Até os tons novamente se elevarem, para seguira na cadência linear tão características dos Vaccines na volta para o verso. Uma impecável construção rítmica.




Daí pra frente o som fica com a cara que caracteriza a banda. E é engraçado ver que, durante todo o verso e em determinadas partes do refrão, o guitarrista principal, Freddie Cowan segura uma só nota. É claro, colocando boas doses de phaser em sua guitarra. Mas é interessante como uma só nota, somada à base natural da música, pode fazer tanto sentido nesse som.


Se alguém teve a oportunidade de ouvir somente Wreckin' Bar ou então Norgaard - ambas faixas do elogiado álbum What Did you Expect from the Vaccines? - e acabou não gostando da banda, talvez possa se surpreender com essa outra faceta.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Minhas Músicas de 2011 - Parte 8 / #3 - Wild Beasts - We Still Got the Taste Dancing on Our Tongues

3 - Wild Beasts - We Still Got the Taste Dancing on Our Tongues



Esse é o meu terceiro texto tendo a música dos Wild Beasts como tema principal, e nunca me sinto satisfeito. A riqueza da obra desses jovens britânicos é de fazer descobrir sensações novas cada vez que escuto.

"We Still Got the Taste...", segundo os próprios, é um "conto de insaciável desejo, cheio de obscenidade retorcida" - parece estranho, mas tenho certeza que quem ouve a música, entende a frase.

Tenho que admitir que há músicas muito mais rebuscadas e tecnicamente elaboradas no repertório dos Wild Beasts. Porém creio que nenhuma delas tem a mesma capacidade lúdica presente nesse terceiro single do ótimo (e subestimado) "Two Dancers".

O grande barato de se analisar esse som é perceber as diferenças entre versão de estúdio e ao vivo.



Como já disse em outros posts, um dos pontos mais fortes da banda é imensa criatividade e precisão do baterista Chris Talbot.

Pois bem, na versão ao vivo de "We Still Got the Taste...", Chris e o baixista Hayden Thorpe brincam com o tempo. Começam imprimindo uma cadência linear no verso, e mudam para uma cadência ondulante no refrão.

Pra ficar mais claro, é como se a música, no verso, tivesse 100 BPM (Batidas Por Minuto), e no refrão ficasse indo e voltando entre 96 e 98 BPM.
Sim, ao ouvirmos isso dá um nó no cérebro. Uma grande brisa. Coisa linda.

De resto, mais da beleza dos Wild Beasts: combinações precisas entre as vozes de Hayden Thorpe e Tom Fleming, muito uso de atabaques na bateria de Chris Talbot e muito delay na guitarra de Ben Little.

Enfim, boa viagem.

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Versão de estúdio


Versão ao vivo

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Minha Músicas de 2011 - Parte 7 / #4 - Criolo e Gui Amabis - Para Mulatu

4 - Criolo e Gui Amabis - Para Mulatu




Não foi "Subirusdoistiozin", "Bogotá" e nem "Não Existe Amor em SP". A música que mais me chamou a atenção no mágico ano de Criolo foi uma que nem sequer está no "Nó Na Orelha".

"Para Mulatu" é a nona faixa do disco "Memórias Luso/Africanas" de produtor paulista Gui Amabis.

Na versão do álbum há um ar extremamente épico. Percussão que remete aos batuques do candomblé, guitarra reversa e de ritmo sem pausas. A intensão de Gui Amabis nessa música, tal como no álbum, é justamente musicar as memórias e histórias vividas pela sua falecida avó como uma bela homenagem.

A música ficou tão interessante que Criolo resolveu levá-la para os seus shows. Foi em um deles que a descobri e fiquei encantando.
Não fazia ideia do nome, mas tinha certeza que teria que achá-la. Afinal, a trajetória dos meus ancestrais também foi feita de memórias luso-africanas.



Com a banda comandada pelo baixista Marcelo Cabral e o tecladista e produtor Daniel Ganjaman a música perde o ar épico, mas ganha em intensidade e dinamismo no instrumental. Sem contar a potência interpretativa única que Criolo consegue colocar em suas obras ao vivo.

É interessante notar como uma música que se resumia na simplicidade (proposital) de percussão, guitarra, baixo acústico e voz; passa a ser representada por todos estes elementos, mais metais, bateria e teclado. Fazendo com que um arranjo, antes cru, de raízes nordestinas e negras, se torne um som moderno, requintado e que, ainda assim, mantém as suas essências.

Versão de Gui Amabis e Criolo


Versão Criolo e banda